
O recordista mundial de respiração circular, o brasileiro Hilquias Alves, vai estar em Cabo Verde em Fevereiro. Numa entrevista que me concedeu no ano passado, aquando da sua primeira visita ao nosso país, o músico, que é membro da Igreja do Nazareno de Campinas, Brasil, traça o seu percurso, relata a história do recorde e declara-se encantado com Cabo Verde. Na altura, prometeu voltar para tocar e dar aulas de saxofone. E parece que vai cumprir a promessa.
Entrevista por: Teresa Sofia Fortes
- Como nasceu a ideia de bater o recorde de respiração circular, que era detido pelo consagrado saxofonistas norte-americano Kenny G?
- Eu vi numa reportagem, lá no Brasil, que o Kenny G tinha conseguido ficar durante 43 minutos a segurar a mesma nota, e que estava no livro dos recordes, o Guiness, por causa disso. Eu sabia essa técnica, mas não estava perfeita, por isso comecei a treinar. Passei dez a 12 anos a aperfeiçoar essa técnica e comecei a tentar bater o recorde do Kenny G. E consegui, está tudo documentado e registrado. Para mim, isso é uma bênção porque nós, como servos de Deus, devemos fazer o melhor para Deus. E eu sempre pensei que Deus merece o melhor. De modo que sempre que vou fazer uma coisa, principalmente uma habilidade, que é Deus que dá, tem de ser com qualidade, com perfeição, para glorificar o nome do Senhor.
- E como foi que os brasileiros receberam a notícia de que você tinha batido o recorde?
- Todo o mundo ficou feliz e quebrou-se um preconceito. Sabe, o brasileiro gosta muito de desprezar a prata da casa. Se é algo que vem do exterior, diz “Ah, que grande saxofonista americano!”. Então, quando bati o recorde, eles começaram a perceber que também há brasileiros que fazem coisas com qualidade. Ou seja, foi bom porque as pessoas despertaram para o facto de que precisam também valorizar os talentos de casa. E isso também estimulou outros músicos a buscar a excelência.
- Você nasceu em uma família de músicos, não é? Como se desenvolveu a sua relação com a música?
- Sim, eu nasci num lar onde havia muitos saxofones. Por isso, apaixonei-me logo por esse instrumento. Lembro-me de, aos cinco anos, ficar encantado ao ver e escutar meu pai tocando saxofone. Ficava parado, estático, de tão encantado que me sentia. E logo ali já sabia o que ia fazer para o resto da vida: ser saxofonista. Aos oito anos comecei a aprender a tocar, porque foi quando o meu pai teve condições para me comprar um saxofone. Sabe, éramos uma família muito humilde, com dez filhos. Os meus três irmãos mais velhos já tocavam. Nunca mais parei. E a cada dia que passa, aprendo mais.
- E fez carreira como saxofonista?
- Sim. Comecei a aprender em casa e a aperfeiçoar-me sozinho. Nem eu nem os meus outros nove irmãos passamos por escola de música ou conservatório. Aprendemos em casa, tocando sozinhos ou em conjunto. O interessante é que há músicos da UNICAMP, uma universidade de Campinhas muito famosa, que pedem para eu lhes dar aula! Digo-lhes: mas vocês têm diploma e tudo e vêm ter comigo para receber aula? Eles então respondem-me: você não tem diploma, mas a sua habilidade não tem professor de universidade que ensine, e não conseguimos ter por mais que a gente estude. Fico feliz e louvo a Deus, porque esse dom foi me dado por Deus.
- Mas você não é um músico profissional qualquer. Segundo ouvi-o dizer durante o concerto na Igreja do Nazareno de Mindelo, na ilha de São Vicente, agora é um músico que se dedica inteiramente à obra de Deus, deixou de ser músico secular, que dá espectáculos em casas de show mundanas.
- Sim. Sabe, para sobreviver eu tinha que tocar na noite. E fiz isso durante 18 anos. Mas, tocando na noite, comecei a ver muita coisa que desagrada a Deus. Os músicos se envolvem com droga, com prostitutas, entre outras coisas más. Isso me entristecia muito. Fora isso, havia letras de músicas que ofendiam muito aquilo que eu mais amo, que é Deus. E comecei a me entristecer porque perdi amigos por causa da droga, porque também alguns músicos evangélicos que foram tocar na noite acabaram por se envolver com aquele ambiente mau (conto que 70 por cento dos músicos evangélicos que foram tocar na noite se envolveram). Aí, fiz um voto ao Senhor, que completa agora 14 anos, de que nunca mais tocaria para alguém que estivesse a consumir bebida alcoólica ou cigarro. E, de facto, nunca mais toquei. Deus tem suprido todas as minhas necessidades, tem providenciado o sustento da minha casa através dos meus CDs, já tenho sete CDs instrumentais e já ganhei dois prémios como melhor instrumentista do Brasil. E tenho encorajado outros a deixar esse ambiente mundano.
- E como surgiu a possibilidade de vir a Cabo Verde?
- Já estive em Portugal, Espanha, mas o convite para vir a Cabo Verde foi especial, me marcou muito. O povo é muito parecido com o brasileiro. O carinho, o afecto … Não me senti como se estivesse em outro país, me senti em casa. O convite para vir a Cabo Verde surgiu através do Pastor Adérito Ferreira, quando ele esteve num encontro de pastores no Brasil. Eu disse: claro, vou com todo o amor e carinho. Feitos os contactos eu vim a convite do Pr. Adérito Ferreira para tocar na Semana da Juventude da Igreja da Praia. Acabei também por tocar em outros locais. Foi impressionante, marcou-me bastante. Agradeço a oportunidade que me deram de vir conhecer Cabo Verde.
- Durante a sua estada em Cabo Verde, teve encontros com alguns músicos do país, na sua maioria músicos que tocam nas igrejas. Como foi?
- A minha principal preocupação foi transmitir-lhes a importância do cuidado que devem ter no exercício do louvor através da música. Devem ensaiar muito e fazer tudo com perfeição e com zelo. A Bíblia diz “maldito o homem que faz a obra do Senhor relaxadamente” (Jeremias 48:10). Também exortei-lhes a receberem com humildade os elogios. Muitas vezes, quando recebe elogios, o músico começa a achar-se mais importante que os outros, e não é. É igual à pessoa que limpa os bancos da igreja.
- Quais os seus projectos para os próximos tempos?
- Penso lançar ainda este ano o DVD de aulas sobre saxofone, "TUDO SOBRE SAX", e lançar mais um CD. E continuarei com as minhas actuações. Tenho mais de duas mil participações em discos de artistas brasileiros.
- Gostaria de regressar a Cabo Verde para mais actuações e dar algumas aulas de saxofone?
- Claro! Quer marcar já? (risos)